Psicóloga em Porto Alegre

Como o passado influencia o presente: psicanálise, repetição e transformação

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O passado não passou: a permanência psíquica da experiência

Para a psicanálise, nosso passado está sempre presente — não apenas como lembrança, mas como estrutura viva e atuante no modo como sentimos, reagimos, escolhemos e nos relacionamos.

Somos resultado daquilo que vivemos, daquilo que sentimos, daquilo que não conseguimos sentir e da forma como fomos ou não acolhidos ao longo da vida. Cada encontro, cada ausência, cada gesto que nos marcou ou nos feriu está, de alguma maneira, inscrito no nosso modo de existir.

Mas esse passado não é uma prisão definitiva. Ele não determina o nosso futuro. O que determina é como conseguimos lidar com ele — se ele está elaborado, simbolizado, integrado à nossa história, ou se segue atuando de forma compulsiva e inconsciente.

O que acontece quando não elaboramos o que sentimos?

Nem toda experiência difícil se torna um trauma. Nem todo sofrimento se transforma em um bloqueio emocional. O que define o impacto de um acontecimento não é apenas o que aconteceu, mas como o sujeito pôde viver e sentir aquilo.

Se uma emoção forte — como medo, raiva, angústia, culpa — não pôde ser sentida com profundidade, nomeada ou acolhida, ela permanece intacta e fora da simbolização. E o que não foi simbolizado, a psicanálise nos ensina, retorna na forma de repetição ou sintoma.

Essas repetições podem surgir como:

  • Relações afetivas com dinâmicas semelhantes
  • Escolhas que contrariam o próprio desejo
  • Medos desproporcionais a situações presentes
  • Tristeza sem causa aparente
  • Angústia difusa ou sensação de vazio constante
  • Sintomas físicos sem explicação médica clara

Em todos esses casos, algo do passado atua no presente — não como memória organizada, mas como ação que busca elaboração.

A repetição como tentativa de resolver o não elaborado

A psicanálise chama de repetição patológica o processo em que o sujeito, sem perceber, revive aspectos de sua história emocional não assimilada, como se estivesse tentando finalmente elaborar o que ficou congelado.

Mas como o passado não é acessado conscientemente, essa repetição não gera alívio — ao contrário, aprofundam-se o sofrimento, a frustração e a sensação de impotência.

Nesses casos, o sujeito atua sobre o passado em vez de rememorá-lo. Ele revive a cena emocional sem ter consciência de que está fazendo isso — e por isso sofre, sem entender exatamente por quê.

É nesse ponto que a psicanálise se apresenta como um caminho possível.

Sentir, nomear, elaborar: os três eixos da transformação psíquica

O sofrimento emocional não é apenas aquilo que sentimos. É também aquilo que não conseguimos sentir plenamente. Que evitamos, anestesiamos, empurramos para longe — porque dói demais, porque não sabemos como lidar, porque nos confronta com algo muito primitivo.

A psicanálise propõe a seguinte abordagem: escutar aquilo que não foi dito, dar nome ao que não pôde ser simbolizado, abrir espaço para sentir o que foi recalcado.

Isso se dá por meio de três processos fundamentais:

1. Sentir

Permitir que a emoção venha, mesmo que de forma parcial, incompleta, confusa ou contraditória. O trabalho psicanalítico sustenta o tempo necessário para que o sujeito tolere o contato com sua verdade emocional.

2. Nomear

A partir da escuta, da fala e do vínculo com o analista, o sujeito começa a encontrar palavras para nomear o que sentiu e sente. Isso transforma o afeto bruto em representação psíquica — um passo essencial para que a dor possa ser elaborada.

3. Elaborar

Ao nomear e simbolizar, o sujeito reorganiza o sentido daquela experiência. O passado não desaparece, mas deixa de agir como força compulsiva. A pessoa se apropria de sua história e passa a ter mais liberdade para fazer novas escolhas.

O papel da psicanálise na interrupção da repetição

A análise não apaga o passado — mas permite que ele seja vivido de forma diferente. O que foi traumático ou doloroso pode deixar de ser um motor inconsciente de repetição e se tornar uma parte da história pessoal que ganha novo significado.

A clínica psicanalítica atua como espaço de escuta e elaboração, onde:

  • O tempo psíquico é respeitado
  • A dor é acolhida sem pressa de ser resolvida
  • A escuta do analista sustenta aquilo que ainda não pode ser dito
  • O sujeito encontra espaço para se escutar de forma inédita
  • O silêncio também é escutado — porque ele fala

Ao longo desse processo, a repetição perde força. O sujeito começa a escolher ao invés de repetir. Começa a se responsabilizar por si, e não mais por fantasmas do passado.

Repetimos o amor que conhecemos — e o sofrimento que silenciamos

Um dos aspectos mais complexos da repetição é sua presença na vida afetiva. Muitas vezes, repetimos sem perceber o tipo de amor que conhecemos na infância — mesmo quando ele nos feriu.

Essa repetição não é masoquismo. É uma tentativa inconsciente de reencontrar, reviver e finalmente resolver aquilo que não foi elaborado. Mas como o cenário se repete sem a consciência da origem, o sujeito sofre e acredita que “não tem sorte no amor” ou “só atrai pessoas difíceis”.

É preciso reconhecer: repetimos menos quando conseguimos lembrar mais. Repetimos menos quando podemos sentir com verdade o que aquilo nos causou, o que aquilo significa, como aquilo nos moldou.

A psicanálise não promete relacionamentos perfeitos — mas oferece um espaço para que você entenda como se constrói nas relações e o que pode fazer diferente a partir disso.

A memória emocional e o corpo: quando a dor psíquica se manifesta fisicamente

Muitas experiências não simbolizadas se inscrevem no corpo. O sujeito sente sem saber o que sente. Sofre sem saber de onde vem. Procura tratamento médico, mas os exames não mostram alterações. O corpo está falando aquilo que a psique não conseguiu representar.

Essas manifestações psicossomáticas são expressões legítimas do sofrimento emocional. Não são “frescuras”. São formas do inconsciente tentar encontrar uma via de descarga para o que não pôde ser simbolizado.

Ansiedade, insônia, tensão muscular, enxaquecas, crises gástricas — tudo isso pode ter relação com emocionalidades congeladas no passado e que, agora, buscam expressão.

Mais uma vez, a chave está na escuta. Sentir, nomear, elaborar.

O passado não precisa se repetir: ele pode ser transformado

A repetição não é uma sentença. É um chamado. Um pedido silencioso do inconsciente para que algo seja visto, escutado, sentido.

A proposta da psicanálise não é apagar o passado, mas transformar a relação que o sujeito tem com ele. Fazer com que o passado seja uma referência — e não um roteiro.

Você não precisa repetir o que te feriu. Não precisa amar como aprendeu a amar. Não precisa adoecer como sempre adoeceu. Você pode construir uma nova forma de estar consigo e no mundo.

Mas isso exige um trabalho. Exige coragem. Exige tempo. Exige uma escuta que não pressiona, não interpreta antes da hora, não resume sua dor em diagnósticos prontos.

Esse é o trabalho da psicanálise. E ele pode ser profundamente libertador.

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